Da série: coisas que você mais sente falta quando está no exterior

A lista é mais ou menos assim:

1. família
2. amigos
3. temperaturas acima dos 10 graus
4. comida brasileira (ou comida, no meu caso)
5. cerveja gelada
6. café

Obs: os números 1 e 2 costumam variar de posição dependendo do dia, e os números 5 e 6 também trocam de lugar dependendo do horário.

A verdade é que volta e meia a saudade aparece, cada hora de uma coisa, com mais ou menos intensidade. Mas eu preciso pedir desculpa aos meus amigos e familiares porque a primeira coisa que me fez desejar, mesmo que por um momento, estar de volta no Brasil não foi a falta dos velhos conhecidos ou o vento congelante que me atingiu assim que eu saí do aeroporto. Foi o café.

É conhecimento geral que americano não sabe fazer café. Mas tem umas incoerências que eu não sabia antes de chegar aqui e gastar dólares demais em cafés aguados (mas que pelo menos vêm em copos - eu odeio xícaras). Você pede um latte, você recebe um café com leite. Quer variar? Pede um café au lait, que em francês significa... café com leite. Quer variar de novo? Pede um capuccino. E tome o terceiro copo de café com leite do dia.

Se você quiser simplesmente um café preto, você pede só coffe. E eles vão perguntar se você quer leite. É claro que você também pode pedir o café americano - desse jeito mesmo, e forçando o sotaque gringo (nada de pedir um american coffe). E boa sorte para terminar o copo de água marrom que eles vão te entregar.

Fato é que desde que cheguei estive numa busca incessante por um café decente. Tentei achar um funil daqueles de passar café em garrafa térmica para fazer café em casa, mas isso não existe aqui (afinal, existem máquinas que passam café. Duh). Comprei uma maquininha italiana de três xícaras e pó de café (que é caríssimo) pra fazer em casa, mas o pó ainda não é o mesmo. Peregrinei em coffe shops diversas e tomei muito mocha no Starbucks na falta de café de verdade (aliás, criei uma teoria de que Starbucks está para café assim como Mcdonalds está para hamburguer). E aí encontrei o Think Coffe!


Foto tosca porque eu pretendo voltar lá várias vezes e vamos combinar que ficar tirando fotos de cafés é meio mico.

É uma rede de cafés que se diz consciente, com pó de café fair trade e atendentes com cara ou de hippie ou de estudante de cinema blasé, que sempre estão de chapéu ou touca (imagino uma entrevista de emprego pra esse lugar). Mas o que interessa é: além do café deles ser genuinamente bom (não como o nosso, mas ainda assim, bom), eles têm um tipo de café chamado Red Eye (pensado para virar noites, eu imagino), que é como um café expresso enorme que me fez sentir quase em casa.

Ah, e eles tem uma mania maravilhosa de tocar Beatles non-stop na loja perto da NYU.

Bonus pictures:


Não bastasse o jeito que esse povo assassina o café, fui num bar que servia mil tipos de cerveja e tinha uma chamada Black Chocolate e outra Capuccino. Não era figurativo. Eu e uma intercambista da Áustria provamos e eu ainda não entendo por que alguém faria isso. Nem preciso dizer que a reação da austríaca foi ainda mais indignada do que a minha.


Quero morar nessa rua só para ter um endereço mais luxo que um nome de vereador.

Ah, e para todo mundo que quer casar com o PT, se ainda não viu, coloquei outro vídeo do show no youtube. (Ah, prometo começar a usar o canal do DEBAI - apelido que nossa amiga Flávia deu para o blog -, mas eu estava sem a senha).

E last but not least! Ciça Cussioli já chegou em Madrid e está em busca de apartamento. Você pode acompanhá-la pelo twitter e assim que ela estiver instalada, vai postar aqui.

Uma semana de entertainment, ou o que fazer com 20 dólares em NYC

Se tem uma coisa que aparece em quase todas as conversas de estudantes universitários é "Você já viu Avatar?". Eu decidi que vou começar a dizer "Sim, most awesome movie ever!" para acabar logo a conversa, porque se a resposta é negativa, a próxima etapa costuma ser "Você tem que ver! Vamos no IMAX!" Já pseudo combinei de ir duas vezes, mas o cinema aqui é simplesmente MUITO caro e o IMAX é mais loucamente caro ainda. Me arrependo de não ter visto por 10 reais com minha carteirinha de estudante no Brasil, porque aqui estudante não tem desconto e a entrada é uns 20 dólares. James Cameron, foi mal aí, mas eu tenho jeitos melhores de gastar 20 dólares em Nova York.

Por exemplo, 20 dólares é quase a entrada para um musical da Broadway com o maravilhoso Student Discount (que qualquer pode pedir, eu acho, porque ninguém me exigiu documento pra provar que eu estudo), que custa 31.50 dólares. Adivinhem qual que eu fui ver primeiro??



Óbvio! E preciso dizer: eu amo a Meryl Streep com todo meu coração, mas eu finalmente entendo porque tanta gente não gostou dela no papel. A mulher que faz a Donna na Broadway é simplesmente BRILHANTE, canta como ninguém e tem um carisma genial. Já a filha, eu admito que preferi a da versão cinematográfica, no teatro ela ficou meio dramática demais. Para quem não sabe, minha mãe se apaixonou por Mamma Mia e me faz assistir o filme quase que uma vez por semana, então eu sei as falas praticamente de cor e as músicas do Abba dominam minha cabeça com uma frequência incrível. Depois de ver ao vivo, é lógico que eu ainda não consegui tirar "Don't go wasting your emoooooootion, lay all your loooove on meeee" da cabeça.

Dois fatos curiosos: a parte genial dos créditos do filme está na peça, ainda bem. Mas uma cena que está na peça e eu queria muito ter visto no filme acontece logo depois que o Harry diz que a Donna foi a primeira e última mulher que ele amou porque ele é gay: as duas amigas, a Tanya e a Rosie, viram uma pra outra e falam "YES!" como qualquer par de amigas faria depois de passar dois dias decidindo se determinado cara é gay ou não.

Enfim, amei minha Broadway experience, e meu próximo plano é ir ver ou Hair ou Chicago. (mês que vem, é lógico, porque 30 dólares ainda é muito dinheiro) Só quero ver se a Ashlee Simpson vai sair de Chicago, porque aparentemente ela tá interpretando a Roxie e, convenhamos, ninguém merece pagar 30 dólares pra ver Ashlee Simpson.



Outra maneira bem mais interessante de gastar 20 dólares: The Studio @ Webster Hall. O Webster Hall é um club bizarro que tem uma boate upstairs e um lugar de shows de rock no porão. Ontem fui lá num show organizado por uma rádio, onde tocou Flying Machines, A Million Years, e PT Walkley. Esse último é um cara que eu descobri ainda no Brasil e virei fã, então foi muita sorte não só ele ter feito um show logo depois de eu chegar, como num lugar que fica a duas quadras da minha casa.

Foi muito bom mesmo, e nem chegou perto de 20 dólares. Com a Budweiser que eu tomei, deve ter saído uns 13 dólares tudo, e parte da renda ainda foi para o Haiti. Além do mais, esse deve ser o único lugar da cidade que serve cerveja razoavelmente gelada. Para quem não conhece o PT, dá uma olhada. E vale a pena ouvir A Million Years, que tocou antes dele. São uns cinco caras do Brooklyn que mandam muito bem.

Bonus pictures: Depois de Mamma Mia, demos uma passada no Hard Rock Café que, ao contrário do do Rio de Janeiro, não tem só réplicas! haha Quem aí for tão louca pelos Beatles como eu, tá aí uma foto da porta original do estúdio Abbey Road, e da bolsa do Ringo de quando eles vieram pros EUA.



Haiti: the big issue

Aprendi a checar a página de eventos da NYU sempre que possível, porque eles organizam coisas incríveis com pessoas que você sempre quis ouvir falar, tipo esse evento do departamento do Jornalismo que eu to doida pra ver.

Mas hoje eu fiquei sabendo durante uma aula que no final da tarde teria uma mesa redonda (vocabulário universitário, em inglês é panel) sobre o Haiti, chamada Haiti in Context: perspectives in the current crisis. Confesso que achei que fosse ouvir um discurso meio politizado de “vamos ajudar e doar money pra USAID” para reconstruir o país, mas o pessoal era bem mais hardcore.

Começando pelo contexto histórico, a maioria sabe que o Haiti foi o único país da América que teve a independência conquistada através de uma revolução liderada por escravos, em 1804. Começa por aí o fato de que isso não deveria ter acontecido, e os europeus logo arranjaram desculpas para explicar o que para eles era um "pesadelo". Uma delas foi o vudu, a religião que não, não é seguida por 100% população (cerca de 30% é protestante). Teve gente que disse que o Haiti fez um pacto com o diabo para ganhar a independência. (Foi assim que um historiador da época explicou o ritual que foi feito antes da guerra começar e que ainda é realizado todo ano). Isso fez com que, para o resto do mundo e principalmente os EUA, o Haiti fosse visto como um lugar que necessitasse ter a segurança garantida por outros, como as tropas americanas, ou as Nações Unidas. Isso ainda se reflete na cobertura da mídia aqui, onde um editorial do New York Times chamou o vudu de “estrutura que atrasa o progresso” do país.

Karen Greenberg, do departamento do Direito mas que já trabalhou na USAID e outros lugares fodas, disse que reparou que hoje as palavras sendo usadas para descrever a situação no Haiti são as mesmas que o governo americano usou com o Iraque e o Afeganistão. Coisas como “garantir que a área esteja segura antes de entregar ajuda” já aconteceram antes com lugares que tinha características parecidas com as do Haiti: estados falidos, que os EUA não conhecem direito, e onde parte do problema foi causado pelo próprio governo americano. Ainda segundo ela, existe sim um jeito de existir compaixão em políticas de governo, mas que infelizmente os EUA não são bons nisso.

E os problemas de segurança, os tais “security issues” que andam estampando a capa dos jornais daqui, não são lá tão grandes assim. Uma aluna da NYU que estava lá durante o terremoto fez um comentário logo que a mesa abriu para perguntas, e ela disse que o que ela viu foi basicamente pessoas se ajudando - no máximo tumultos na hora de pegar água de um caminhão. Ela passou bastante tempo no aeroporto antes de voltar, que ela diz que tinha virado basicamente território americano. Ajuda chegava de aviões de outros países mas não conseguia pousar porque a prioridade é receber tropas americanas, e ainda assim a ajuda humanitária não chega mais longe do que a alguns quilômetros do aeroporto, onde milhares de pessoas estão vivendo numa área descampada.

Gina Ulysses, que nasceu no Haiti e dá aula numa outra universidade, destacou que a mídia não está falando das maiores favelas do Haiti, como Cité Soleil, e sim focando em resgates únicos de uma pessoa aqui e outra ali. Segundo ela, ninguém vai lá por causa dos “security issues”. Eu mesma me lembro de ler sobre essa favela quando os militares brasileiros estavam lá, mas ultimamente não tenho nem visto esse nome em muitos lugares.

A solução que todo mundo queria era simples: tirar os EUA do Haiti. Para um homem na platéia, o mais absurdo de tudo foi o Obama ter chamado Bill Clinton e George Bush para ajudar na arrecadação de fundos. Foi durante o governo do Clinton que os EUA interveio na política haitiana e o Bush… bem, é o Bush. “Ele tava quieto no rancho dele no Texas, e agora ele está de volta!” Mas todos admitiram que isso seria praticamente impossível.

Em dado momento, o professor Michael Dash, que dá uma disciplina sobre o Haiti, disse que o momento atual no país é o “Day after”. “É como se a gente tivesse voltado para a revolução de
1804.” O país precisa renascer. Mas e agora?

Um dos depoimentos mais emocionantes (todos que participaram haviam estado nos Haiti há pouco tempo, muita gente que falou era de lá, então foi bem intenso) foi quando uma mulher haitiana levantou para dizer que ela se sentia com sorte porque os 20 membros da sua família que estavam lá sobreviveram. Perderam amigos e namorados, mas estão todos vivos. “E eu acho que isso aconteceu para que a gente possa fazer algo de bom pelos outros. Mas o quê? Se o Haiti voltar para a merda em que estava antes, eu não sei o que vamos fazer”, disse, chorando. (e eu admito, eu também chorei)

Segundo os participantes, o primeiro passo é divulgar tudo isso, e exigir uma cobertura da mídia que seja mais do que refletir o medo que os EUA têm do misticismo do país, do vudu, e do pacto com o diabo. Logicamente, ninguém estava feliz com a imprensa, o que não é muito diferente de mesas redondas desse tipo no Brasil. E a segunda coisa é prestar atenção na hora de fazer doações, e escolher principalmente organizações que já estavam lá antes e pretendem continuar. Porque não adianta dezenas de organizações não-governamentais chegarem no país e construirem coisas, se o que o Haiti realmente precisa é reconstruir seu governo. (Isso veio de uma professora especialista em Direitos Humanos)

Eu to tentando fazer a primeira parte. E uma coisa que ninguém falou e que eu teria falado se não estivesse lotado de gente querendo fazer perguntas ou eu não fosse tão tímida pra essas coisas é: a internet tá aí pra isso. Twitter, blogs, etc. Bora “spread the word” entre os brasileiros também.

Inauguração


Turistagens: eu no Flatiron Building, a vista do Chrysler Building do Grand Central Terminal e os cartazes dos musicais da Broadway (que custam tipo 30 dólares para estudantes, UHUL) na Times Square.

Como a viagem da Ciça começa só no final do mês, sobrou pra mim inaugurar o espaço. Não tenho muita prática em escrever para blogs e definitivamente não tenho prática em como viver em Nova York, então é lógico que só pode dar certo.

Uma semana já deu para sentir duas coisas: primeiro, que essa cidade é a capital da randomness. É fácil começar conversas com pessoas aleatórias, em lugares aleatórios, e sair de um bar às 3 da manhã querendo comer e ir pra casa e acabar numa diner até as 4 com um Barney Stinson-wanna be de terno e chapéu (não sem antes parar numa loja de uma vidente e esperar uma menina descobrir que tem problemas de relacionamento por 20 dólares). Assim como esbarrar num grupo ótimo de caras cantando na Washington Square.

A segunda quem me disse foi um austríaco (intercambista só conhece mesmo outros intercambistas, e para não ter que lembrar o nome complicado, usa a nacionalidade) e é: "é um lugar completamente diferente, mas ao mesmo tempo totalmente igual". A gente entrou num Bar & Restaurante, e lá dentro parecia mesmo um "club". Mas quando tocou "I've got a feeling", a reação de ir a loucura cantado junto foi exatamente a mesma de qualquer outro país (infelizmente?). O tempo tá tipo 40 graus mais frio e completamente diferente, mas acreditem, existem meninas que saem de mini-saia e salto altíssimo numa noite de -5º C (piriguetes are everywhere).

Amanhã vou num tour naqueles ônibus de turista (em minha defesa, a universidade tá organizando e é de graça), o que deve render fotos melhores. Mas para mostrar a vida não tão turista também, tá aí um gostinho da college life:

NYU: O U-Hall, o alojamento onde eu e mais uns mil alunos moram, um pedaço do meu dorm room (bagunçado, óbvio) e a bandeira da College of Arts and Science, onde eu vou ter a maioria das minhas aulas.

Duas viagens num blog só


Amigas desde o primeiro ano da faculdade de jornalismo, Ciça e Lê resolveram se separar. Não por causa de brigas superficiais ou puro enjôo da figura alheia (como era de se esperar). O motivo é mais nobre e mais divertido. Enquanto Letícia resolveu treinar seus dons jornalísticos atrás de Chuck Bass na conceituada Universidade de Nova York, Ciça decidiu explorar o Velho Mundo – como Portugal é muito chato, Inglaterra é muito cara e francês e alemão não constam em seu currículo, Madrid foi a solução.


A maioria dos estudantes de jornalismo que se prezam tem um blog, mas nunca foi o caso das duas. A vergonha na cara bateu na hora que as viagens foram confirmadas, e a ideia final de unir esforços veio num sonho de Ciça, que viu um futuro brilhante na blogsfera para os posts vindos de Nova York e de Madrid. Não há certeza quanto a esse futuro brilhante, mas pelo menos um pouco de prática e risadas devem sair da empreitada.


Nós próximos seis meses vão unir o blog aos meios de comunicação mais comuns, como email e skype e compartilhar com quem não tiver mais nada pra fazer todos que estão com saudades as experiências na cidade da maça e do touro. Ou melhor, vão tentar esquecer essas idéias estúpidas de maçã e touro, sair do roteiro turistão e mostrar tudo o que quase não se fala sobre as duas cidades


Toda semana posts sobre musica, moda, museus, gastronomia, passeios, pessoas, micos, e tudo mais que estiver no caminho. Sem roteiro, um mashup espontâneo dessas duas viagens.



ps. Elas juram, prometem nunca mais escrever em terceira pessoa. E pedem desculpa por nunca terem tirado uma foto decente juntas.

 

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