Da série: coisas que você mais sente falta quando está no exterior
Uma semana de entertainment, ou o que fazer com 20 dólares em NYC
Haiti: the big issue
Aprendi a checar a página de eventos da NYU sempre que possível, porque eles organizam coisas incríveis com pessoas que você sempre quis ouvir falar, tipo esse evento do departamento do Jornalismo que eu to doida pra ver.
Mas hoje eu fiquei sabendo durante uma aula que no final da tarde teria uma mesa redonda (vocabulário universitário, em inglês é panel) sobre o Haiti, chamada Haiti in Context: perspectives in the current crisis. Confesso que achei que fosse ouvir um discurso meio politizado de “vamos ajudar e doar money pra USAID” para reconstruir o país, mas o pessoal era bem mais hardcore.
Começando pelo contexto histórico, a maioria sabe que o Haiti foi o único país da América que teve a independência conquistada através de uma revolução liderada por escravos, em 1804. Começa por aí o fato de que isso não deveria ter acontecido, e os europeus logo arranjaram desculpas para explicar o que para eles era um "pesadelo". Uma delas foi o vudu, a religião que não, não é seguida por 100% população (cerca de 30% é protestante). Teve gente que disse que o Haiti fez um pacto com o diabo para ganhar a independência. (Foi assim que um historiador da época explicou o ritual que foi feito antes da guerra começar e que ainda é realizado todo ano). Isso fez com que, para o resto do mundo e principalmente os EUA, o Haiti fosse visto como um lugar que necessitasse ter a segurança garantida por outros, como as tropas americanas, ou as Nações Unidas. Isso ainda se reflete na cobertura da mídia aqui, onde um editorial do New York Times chamou o vudu de “estrutura que atrasa o progresso” do país.
Karen Greenberg, do departamento do Direito mas que já trabalhou na USAID e outros lugares fodas, disse que reparou que hoje as palavras sendo usadas para descrever a situação no Haiti são as mesmas que o governo americano usou com o Iraque e o Afeganistão. Coisas como “garantir que a área esteja segura antes de entregar ajuda” já aconteceram antes com lugares que tinha características parecidas com as do Haiti: estados falidos, que os EUA não conhecem direito, e onde parte do problema foi causado pelo próprio governo americano. Ainda segundo ela, existe sim um jeito de existir compaixão em políticas de governo, mas que infelizmente os EUA não são bons nisso.
E os problemas de segurança, os tais “security issues” que andam estampando a capa dos jornais daqui, não são lá tão grandes assim. Uma aluna da NYU que estava lá durante o terremoto fez um comentário logo que a mesa abriu para perguntas, e ela disse que o que ela viu foi basicamente pessoas se ajudando - no máximo tumultos na hora de pegar água de um caminhão. Ela passou bastante tempo no aeroporto antes de voltar, que ela diz que tinha virado basicamente território americano. Ajuda chegava de aviões de outros países mas não conseguia pousar porque a prioridade é receber tropas americanas, e ainda assim a ajuda humanitária não chega mais longe do que a alguns quilômetros do aeroporto, onde milhares de pessoas estão vivendo numa área descampada.
Gina Ulysses, que nasceu no Haiti e dá aula numa outra universidade, destacou que a mídia não está falando das maiores favelas do Haiti, como Cité Soleil, e sim focando em resgates únicos de uma pessoa aqui e outra ali. Segundo ela, ninguém vai lá por causa dos “security issues”. Eu mesma me lembro de ler sobre essa favela quando os militares brasileiros estavam lá, mas ultimamente não tenho nem visto esse nome em muitos lugares.
A solução que todo mundo queria era simples: tirar os EUA do Haiti. Para um homem na platéia, o mais absurdo de tudo foi o Obama ter chamado Bill Clinton e George Bush para ajudar na arrecadação de fundos. Foi durante o governo do Clinton que os EUA interveio na política haitiana e o Bush… bem, é o Bush. “Ele tava quieto no rancho dele no Texas, e agora ele está de volta!” Mas todos admitiram que isso seria praticamente impossível.
Em dado momento, o professor Michael Dash, que dá uma disciplina sobre o Haiti, disse que o momento atual no país é o “Day after”. “É como se a gente tivesse voltado para a revolução de
Um dos depoimentos mais emocionantes (todos que participaram haviam estado nos Haiti há pouco tempo, muita gente que falou era de lá, então foi bem intenso) foi quando uma mulher haitiana levantou para dizer que ela se sentia com sorte porque os 20 membros da sua família que estavam lá sobreviveram. Perderam amigos e namorados, mas estão todos vivos. “E eu acho que isso aconteceu para que a gente possa fazer algo de bom pelos outros. Mas o quê? Se o Haiti voltar para a merda em que estava antes, eu não sei o que vamos fazer”, disse, chorando. (e eu admito, eu também chorei)
Segundo os participantes, o primeiro passo é divulgar tudo isso, e exigir uma cobertura da mídia que seja mais do que refletir o medo que os EUA têm do misticismo do país, do vudu, e do pacto com o diabo. Logicamente, ninguém estava feliz com a imprensa, o que não é muito diferente de mesas redondas desse tipo no Brasil. E a segunda coisa é prestar atenção na hora de fazer doações, e escolher principalmente organizações que já estavam lá antes e pretendem continuar. Porque não adianta dezenas de organizações não-governamentais chegarem no país e construirem coisas, se o que o Haiti realmente precisa é reconstruir seu governo. (Isso veio de uma professora especialista em Direitos Humanos)
Eu to tentando fazer a primeira parte. E uma coisa que ninguém falou e que eu teria falado se não estivesse lotado de gente querendo fazer perguntas ou eu não fosse tão tímida pra essas coisas é: a internet tá aí pra isso. Twitter, blogs, etc. Bora “spread the word” entre os brasileiros também.
Inauguração
Duas viagens num blog só

Amigas desde o primeiro ano da faculdade de jornalismo, Ciça e Lê resolveram se separar. Não por causa de brigas superficiais ou puro enjôo da figura alheia (como era de se esperar). O motivo é mais nobre e mais divertido. Enquanto Letícia resolveu treinar seus dons jornalísticos atrás de Chuck Bass na conceituada Universidade de Nova York, Ciça decidiu explorar o Velho Mundo – como Portugal é muito chato, Inglaterra é muito cara e francês e alemão não constam em seu currículo, Madrid foi a solução.
A maioria dos estudantes de jornalismo que se prezam tem um blog, mas nunca foi o caso das duas. A vergonha na cara bateu na hora que as viagens foram confirmadas, e a ideia final de unir esforços veio num sonho de Ciça, que viu um futuro brilhante na blogsfera para os posts vindos de Nova York e de Madrid. Não há certeza quanto a esse futuro brilhante, mas pelo menos um pouco de prática e risadas devem sair da empreitada.
Nós próximos seis meses vão unir o blog aos meios de comunicação mais comuns, como email e skype e compartilhar com quem não tiver mais nada pra fazer todos que estão com saudades as experiências na cidade da maça e do touro. Ou melhor, vão tentar esquecer essas idéias estúpidas de maçã e touro, sair do roteiro turistão e mostrar tudo o que quase não se fala sobre as duas cidades
Toda semana posts sobre musica, moda, museus, gastronomia, passeios, pessoas, micos, e tudo mais que estiver no caminho. Sem roteiro, um mashup espontâneo dessas duas viagens.
ps. Elas juram, prometem nunca mais escrever em terceira pessoa. E pedem desculpa por nunca terem tirado uma foto decente juntas.

